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Notícias

O que é essa tal de ABA?

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Toda mãe e todo pai de uma criança diagnosticada como Transtorno do Espectro Autista (TEA) já ouviu falar que sua filha ou seu filho deveria “fazer ABA”. É, muitas vezes, o início de uma série de confusões e mal entendidos sobre o que deve ser feito, que profissional deve ser procurado, quanto tempo isso vai demorar, o que as mães e pais devem fazer... E, principalmente, sobre o que é e o que não é ABA.

Muitas vezes chamada confusamente de “terapia ABA” ou “método ABA”, a sigla ABA vem do inglês para “Análise do Comportamento Aplicada” (Applied Behavior Analysis), e faz exatamente o que diz na lata: aplicação de técnicas e tecnologias provenientes da Análise do Comportamento. Ou seja, usa as descobertas científicas da ciência do comportamento e as técnicas e tecnologias comprovadas cientificamente nessa área para propor soluções para problemas de comportamento humano. O analista do comportamento é o profissional capacitado para, usando seu conhecimento sobre o comportamento humano, programar, implementar e avaliar intervenções para problemas comportamentais dos mais diversos tipos, nos mais diferentes contextos. Analistas do comportamento aplicam seu conhecimento para programar ensino de diversas habilidades acadêmicas no âmbito escolar e no treinamento e capacitação profissional em diversos campos de trabalho. Também podem ser consultores na proposição de políticas públicas para melhorar ou modificar a maneira como as pessoas usam o cinto de segurança ou a faixa de pedestres, por exemplo. A Educação Especial se beneficia amplamente das técnicas comportamentais para o ensino de pessoas com diversas necessidades especiais. Na área da saúde, a ABA está presente nos serviços de terapia comportamental, reabilitação e, com grande sucesso, no tratamento de pessoas com TEA.

O que todas essas intervenções em contextos tão diferentes têm em comum é que o analista do comportamento vai usar sempre, em qualquer situação, seus conhecimentos científicos para modificar o comportamento das pessoas: eliminar ou diminuir comportamentos problemáticos e ensinar novos comportamentos quando eles são necessários. Para isso, partimos da premissa de que todo comportamento tem uma razão de ser, que toda ação tem um efeito sobre o ambiente de quem se comporta. Quando uma criança faz birra, esse comportamento pode ter diversos efeitos no ambiente dessa criança, desde conseguir um brinquedo ou um pacote de biscoito recheado até se livrar de uma situação desconfortável para ela, como ir para a escola. O analista do comportamento tem diversas técnicas para observar e descobrir qual o efeito importante para aquela criança, naquele momento, que a leva a fazer birra em determinados ambientes. De posse desse conhecimento, o profissional pode, então, programar intervenções para modificar o comportamento de birra da criança e ensiná-la a se comportar de outros modos – mais adequados – para alcançar os efeitos desejados.

Especificamente no tratamento de pessoas com TEA, o que o analista do comportamento faz é, inicialmente, descobrir quais as causas dos comportamentos problemáticos do cliente procurando justamente quais os efeitos que esse comportamento tem no ambiente. Pessoas com TEA podem ter dificuldade de se comunicar e expressar suas vontades e seus sentimentos e muitas vezes desenvolvem comportamentos estranhos ou inadequados porque os efeitos dessas ações comunicam coisas para as pessoas em seu ambiente social. Uma criança com TEA pode, por exemplo, bater com a cabeça numa porta porque toda vez que ela faz isso alguém abre a porta e ela pode sair para brincar lá fora. Quando esse efeito é identificado, o analista do comportamento aplica diversas técnicas para, gradualmente, eliminar o comportamento problemático de bater a cabeça e ao mesmo tempo ensinar uma maneira da criança comunicar sua vontade de sair para brincar lá fora. De modo geral as técnicas de intervenção comportamental consistem em programas estruturados de tentativas de ensino em que o cliente é exposto a várias oportunidades de aprendizagem de um comportamento novo que tem o mesmo efeito ou outro efeito igualmente desejável e importante para aquele indivíduo. Quando a pessoa com TEA aprende que apontar para a porta e falar “sair!” tem o mesmo efeito sobre as pessoas (alguém abre a porta) e produz a mesma consequência de bater a cabeça (poder sair para brincar lá fora), ao mesmo tempo que bater a cabeça não mais produz o efeito desejado, ela passa a se comportar de outra maneira ao longo da intervenção.

Juntamente com a família e a escola, o analista do comportamento vai identificar quais a necessidades de aprendizagem e quais as habilidades e comportamentos que aquele indivíduo precisa aprender, assim como quais os comportamentos problemáticos que ela ou ele apresenta que podem estar dificultando essas aprendizagens ou impedindo que a pessoa tenha acesso a oportunidades de ensino. Uma vez identificado o que precisa ser ensinado, o profissional capacitado vai programar uma ordem em que esses comportamentos podem ser ensinados da maneira mais efetiva porque muitas vezes precisamos aprender primeiro uma habilidade mais simples para depois desenvolver um repertório mais complexo. Por exemplo, é preciso que a criança saiba como segurar um lápis e como traçar linhas no papel antes que se tente ensinar a habilidade de escrever letras e números. O objetivo da intervenção comportamental é sempre construir os repertórios de habilidades e comportamentos gradualmente, no tempo do aprendiz, e de maneira gratificante para ele ou ela. Para cada tipo de comportamento a ser ensinado podemos usar diferentes arranjos e programas de intervenção. Podemos trabalhar com materiais sobre uma mesa (por exemplo, um tablet com imagens em movimento ou diversos cartões que são apresentados sobre a mesa podem ser usados para ensinar o nome dos algarismos...); estruturar o ambiente natural do cliente (como colocar as roupas empilhadas na ordem em que devem ser vestidas depois do banho, de modo que ao chegar no fim da pilha a criança esteja vestida de maneira adequada e sem problemas na execução da tarefa); ou aproveitar situações e contextos do dia-a-dia como oportunidades para o ensino (usar a hora da refeição, por exemplo, para ensinar o cliente a pedir o que deseja comer).

As intervenções comportamentais para pessoas com TEA também são muito eficientes para ensinar diversas habilidades que os programas educacionais tradicionais não conseguem. Por meio da apresentação de tentativas de ensino estruturadas com começo, meio e fim, que produzem efeitos imediatos no ambiente, do uso de instruções simples e claras, e da repetição da quantidade necessária de tentativas para que o indivíduo aprenda um habilidade de maneira eficiente e a seu tempo, as intervenções comportamentais são ferramentas importantes para que as pessoas com TEA adquiram um repertório social que permita, por exemplo, sua inclusão escolar efetiva. A ABA tem demonstrado resultados benéficos no ensino de habilidades comunicativas, linguagem, leitura e escrita, matemática, autocuidados, habilidades sociais e diversos outros repertórios importantes para a autonomia e a qualidade de vida de pessoas com TEA, atrasos de desenvolvimento ou com outras necessidades especiais.

Ana Arantes é Analista do Comportamento, Professora do Curso de Especialização em ABA-Autismo do LAHMIEI/UFSCar e do Departamento de Psicologia da UFSCar.

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