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Notícias

Adolescentes em conflito com a lei e possibilidades de intervenção

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Profª. Analu Ianik Costa



Muitas vezes ao abordar a temática de adolescentes em conflito com a lei, é comum ouvir que este é um caminho sem volta e que dificilmente eles deixarão de se envolver com atividades ilícitas e que possivelmente se tornarão adultos que cometem crimes. Porém, demandas específicas, neste caso os comportamentos antissociais: que causam danos a outras pessoas, exigem intervenções adequadas para que possam ser atingidas com eficácia. Em relação aos adolescentes que se encontram em situação de risco não é diferente, e é fundamental que estratégias de intervenção sejam adotadas para prevenir o cometimento e a reiteração de atos infracionais, tal como proporcionar uma melhor qualidade de vida para estes jovens e a comunidade na qual eles estão inseridos.

Para compreender os comportamentos apresentados por estes jovens, é fundamental considerar a história de vida de cada um deles. Existe um consenso na literatura nacional e internacional acerca dos fatores de risco que aumentam a probabilidade da ocorrência de comportamentos antissociais, dentre eles as práticas educativas negativas adotadas por pais ou cuidadores (Gomide, 2006; Patterson et al., 1992) negligência (Albornoz, 2009), vizinhança com altos índices de violência (Baskin & Sommers, 2015; Widow, 1997), abuso físico e psicológico (Campbell & Thompson, 2015; You & Kim, 2015), violência sexual (Miron & Orcutt, 2014), acolhimento institucional (Salina-Brandão & Williams, 2009) entre outros.



Considerando a influência destes fatores no desenvolvimento saudável da criança e do adolescente, é fundamental que estratégias sejam empregadas para prevenir e também reduzir a frequência destes comportamentos, aumentando o contato do adolescente com fatores protetivos. Quando um adolescente em conflito com a lei é encaminhado para a psicoterapia esta atua como um fator de proteção e ele tem a oportunidade de entender o quanto os comportamentos que ele tem podem ser prejudiciais e pode aprender novos comportamentos que influenciam na melhora da sua qualidade de vida e dos demais membros da sociedade. Quando um adolescente entra em contato com mais fatores de risco do que de proteção (escola, práticas educativas positivas, profissionalização, entre outros) é possível que venha a apresentar comportamentos que prejudicam outras pessoas e que podem estar em conflito com a lei.

Além da psicoterapia, outras estratégias também são eficientes para reduzir estes comportamentos considerados inadequados. Treinamentos em grupo de comportamento moral (Gomide, 2010), no qual são discutidos temas como generosidade, polidez, perdão e reparação de danos, empatia, justiça e demais valores que os adolescentes não tiveram contato ao longo da vida. A profissionalização também é outro importante fator que pode diminuir as chances de um adolescente entrar em conflito com a lei. A medida que aprende a desempenhar uma função e é remunerado para isso, em programas para aprendizes ou estagiários, as chances de envolvimento com atividades ilícitas reduz.

Conclui-se que a psicologia tem muito a oferecer tanto no quesito prevenção quanto na proposta de intervenções para adolescentes em conflito com a lei. Além de fornecer embasamento para a compreensão do desenvolvimento desta trajetória que segundo Patterson (1992) inicia desde muito cedo na infância e perpassa toda a adolescência até a vida adulta, e a única maneira de reduzir os possíveis danos causados é diminuir o contato com fatores de risco e aumentar os fatores de proteção presentes.

REFERÊNCIAS
Albornoz, A. C. G. (2014). Manifestações da Agressividade em Crianças Acolhidas em Instituições. In J. C. Borsa, & D. R. Bandeira, Comportamento agressivo na infância da teoria a prática (pp. 239-254). São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.
Alwood, M.A. & Widom, C.S. (2013). Child abuse and Neglect, developmental role attainment, and adult arrests. Journal of research in crime and delinquency, 50. pp. 551-578. doi:10.1177/0022427812471177
Baskin, D. & Sommers, I. (2015). Trajectories of exposure to community violence and mental health symptoms among serious adolescente offenders. Criminal Justice and Behavior, Vol. 42, n°6, Junho, pp. 587 – 609. doi: 10.1177/0093854814556882
Campbell, A. M. & Thompson, S. L. (2015). The emotion maltreatment of children in violent homes: Identifying gaps in education and addressing common misconceptinons. Child Abuse & Neglect. Vol 39 pp. 49 – 59. doi: 10.1016/j.chiabu.2015.08.009
Gomide, P. I. C. (2006). Inventário de Estilos Parentais. Modelo teórico: manual de aplicação, apuração e interpretação. Petrópolis, RJ: Vozes.
Gomide, P. I. C. (2010). Comportamento moral: Uma proposta para o desenvolvimento de virtudes. Curitiba, PR: Editora Juruá.
Miron, L. R. & Orcutt, H. K., (2014). Pathways from childhood abuse to prospective revictimization: depression, sex to reduce negative affect, and forecasted sexual behavior. Child Abuse & Neglect. Vol 38 pp. 1848 – 1859. doi: 10.1016/j.chiabu.2014.10.004.
Patterson, G. R., Reid, J. B. & Dishion, T. (1992). Antisocial Boys. Eugene, USA: Castalia Publishing Company.
Salina-Brandão, A. & Williams, L. C. A. (2009). O Abrigo como Fator de Risco ou Proteção: Avaliação Institucional e Indicadores de Qualidade. Psicologia: Reflexão e Crítica. Vol. 22(3) pp. 334-343. doi: 10.1590/S0102-79722009000300003.
You, S. & Lim, S. A. (2015). Development pathways from abusing parenting to delinquency: The mediating role of depression and agression. Child Abuse & Neglect. Vol 46 pp. 152 – 162. doi: 10.1016/j.chiabu.2015.05.009.
Widom, C.S (1997). Child abuse, neglect, and witnessing violence. In D.M. Stoff.; J. Breiling, & D.J. Maser. (Eds). Handbook of Antisocial Behavior. (pp. 159 – 170). New York, USA: John Wiley & Sons, Inc.

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Analu Ianik Costa é formada em Psicologia pela Faculdade Evangélica do Paraná. Mestre em Psicologia Forense pela Universidade Tuiuti do Paraná. Está cursando especialização em Terapia Analítico Comportamental e atualmente é Psicóloga Clínica em Curitiba-PR e Professora da Uniandrade nos cursos de Psicologia, Administração e Ciências Contábeis.

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