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Notícias

“Somos sempre muito mais que uma única história: Como “driblar” os preconceitos?”

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Por Táhcita Medrado Mizael

Como são os muçulmanos? E os católicos? E os umbandistas? Faça uma lista com cinco ou seis adjetivos relativos a cada um desses grupos. Terminou? Agora me diga, quantas pessoas pertencentes a cada um desses grupos você conhece pessoalmente? É um número de pessoas suficientemente alto para você dizer que conhece tais grupos?



Nós, seres humanos, temos capacidades cognitivas impressionantes. Não precisamos ter contato físico com cada objeto existente no mundo para aprendermos sobre eles. A linguagem nos beneficia enormemente, propiciando aprendizagem sobre coisas, animais e pessoas com os quais poderíamos nunca ter tido a possibilidade de contatar. É por isso que nós somos capazes de falar sobre muçulmanos, aborígenes australianos, suecos, etc. mesmo sem nunca ter visto ou conversado com um pessoalmente.

Nossa capacidade nos permite criar relações com as informações que nos são apresentadas, de modo que, quando vemos ou pensamos em um estímulo (objeto, animal ou pessoa), várias coisas relacionadas a ele são também lembradas: diante  do objeto “sapato”, posso pensar em frio, chinelo, dor nos pés, conforto, sapateado,  dança de salão, ...

Veja, no exemplo acima, que é possível pensar em coisas positivas e negativas relacionadas a um mesmo objeto, uma vez que é comum ter os dois tipos de experiências nas diferentes ocasiões que temos contato com certo estímulo. Mas essa capacidade de listar adjetivos relacionados a certo estímulo pode acontecer mesmo quando se trata de algo que você nunca experienciou. É por isso que somos capazes de fazer listas de adjetivos para grupos de pessoas que só conhecemos pela televisão, ou por ter lido em algum lugar, e às vezes nem isso!!!

Essa capacidade de fazer relações verbais não acontece só com informações diretas, como “alemães gostam de cerveja” e “brasileiros curtem o carnaval”: quando eu ouço que “ser pobre é ser inferior” e que “muitos pobres são negros”, é possível que eu aprenda também, mesmo que ninguém me diga, que “negros são inferiores”. Essa aprendizagem indireta, assim como a direta, pode não ser acurada, ou seja, não corresponder à realidade. Isso ocorre porque essas aprendizagens não dependem das características físicas dos estímulos, sendo, portanto, convencionadas em uma dada sociedade.

Você pode ter questionado a veracidade da frase “brasileiros curtem carnaval”, pois, sendo provavelmente brasileiro, você conhece centenas de brasileiros, alguns que, certamente, não curtem carnaval. Por outro lado, você pode ter conversado com um estrangeiro que acreditava piamente que você gostava de carnaval, ou que soubesse sambar, mesmo que você não goste de ambos. A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie discute muito bem essa questão quando nos diz sobre os perigos de uma única história em seu discurso no TED Talks. Ela nos diz que o fato de ouvirmos somente histórias de destruição (e.g., guerras, pobreza, epidemia de AIDS) com relação ao continente africano faz com que pensemos nele com base nessa única história. E nos diz:

“É assim que se cria uma única história: mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão... A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem uma história tornar-se a única história...”

O que Chimamanda nos chama a atenção são os preconceitos (pré-conceitos) que aprendemos e reproduzimos como se fossem verdades. Mesmo sem perceber, nós reproduzimos dezenas de concepções incompletas (e às vezes totalmente incorretas) sobre grupos sociais. E junto com essas concepções, há uma valoração geralmente negativa atrelada, que pode nos impedir de ter um contato real com o grupo estigmatizado, o que nos possibilitaria descobrir as muitas histórias desse grupo.

Assim, devemos reconhecer as vantagens da nossa linguagem e cognição, ao mesmo tempo em que nos atentamos para os perigos inerentes a aprendizagem dessas relações, principalmente quando dizem respeito a grupos de pessoas. Se nós aprendemos certas relações, podemos aprender novas! Se eu aprendi que “viado é ruim” e que “gay é o mesmo que viado”, posso ensinar que “cidadãos comuns (algo considerado positivo) podem ser gays”. Se eu aprendi que “menino é o oposto de menina” e que “bonecas são para meninas”, posso ensinar que brinquedos são para todos, meninos e meninas, e que não deixar meninos brincarem de boneca ajuda a explicar a falta de habilidade no cuidado de crianças quando estes se tornam pais!

Nós, brasileiros, gostamos de praia, carnaval e futebol? Conhecendo nossa diversidade, e reconhecendo que mesmo para os que se identificam com essas características, nós somos MUITO MAIS do que isso, porque acreditar que muçulmanos são todos maus e fanáticos, ou que umbandista é o mesmo que desejar mal para os outros? Quando, ao pensar em algum grupo social e os adjetivos se referirem a uma única história, geralmente negativa, lembre-se do recado de Chimamanda:

“Quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos que nunca há apenas uma história sobre nenhum lugar, nós reconquistamos um tipo de paraíso”.

Referencia
Vídeo de Chimamanda Adichie no TED Talks: https://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story/transcript

Mini-Currículo: Táhcita Medrado Mizael é psicóloga e mestre em Psicologia pela UFSCar. Atualmente, cursa o doutorado em psicologia pela mesma universidade (Bolsista FAPESP). Especialista em gênero e sexualidade pela UERJ, faz parte do CLiCS - Grupo de Pesquisa em Cultura, Linguagem e Comportamento Simbólico e do INCT-ECCE - Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino. Escreve para os blogs “Boletim Behaviorista” e “Cientistas Feministas”.

O ABPMC Comunidade é um projeto da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC) que visa levar o conhecimento e experiências desenvolvido por profissionais e pesquisadores da área para toda a a comunidade.

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