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Notícias

Suicídio e políticas públicas: precisamos falar sobre eficiência

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Segundo os dados da WHO (World Health Organization), cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio anualmente, tornando-o a 18ª causa de morte no ano de 2016. O fenômeno atinge diversos grupos etários, o que mostra a necessidade de seu estudo. Além disso, contrário ao mito popular que suicídio é um acontecimento que atinge apenas pessoas mais abastadas, 79% de mortes por suicídio ocorreram em países de baixa e média renda, segundos os dados de 2016 da organização.

No tocante a estratégias de prevenção, diversas medidas podem ser tomadas, tais como: restrição de acesso a meios letais, tratamentos psicoterápicos e psiquiátricos, estratégias envolvendo a mídia, screening (identificação de pessoas em risco), apoio com internet e hotlines (como o Centro de Valorização da Vida). Dada a impossibilidade de se detalhar todas as estratégias neste texto, a questão de restrição de acesso a meios letais será focada.

Em políticas públicas universalistas, o valor arcado pelo demandante do serviço será zero, enquanto o custo de se ofertar será maior que zero, o que provoca um volume de demanda de recursos maior do que a oferta consegue suprir. Neste ambiente, torna-se fundamental uma boa delimitação de prioridades para a melhor alocação possível destes recursos escassos. Diversas estratégias para a prevenção do suicídio, um problema de saúde pública, são implementadas nacional e internacionalmente. Todavia, há algumas medidas que são empiricamente mais efetivas que outras. Enquanto escolhermos quaisquer medidas, e não as mais efetivas, estaremos deixando de otimizar o dinheiro disponível ao setor público para a promoção de bem-estar social.

Há inúmeras maneiras de se restringir acesso a meios letais para suicídio. O mais comumente discutido é com relação a armas de fogo, através de legislações mais rígidas para o porte e a posse. Outra forma consiste em maior regulamentação não só para a disponibilidade de pesticidas mais tóxicos para humanos, mas também para seu armazenamento. Na questão de armazená-lo de forma mais segura, há resultados promissores para a redução de mortes por suicídio através deste método no Sri Lanka e na Índia, países nos quais o emprego de tal método é prevalente.

Em nossa sociedade, há alguns locais que se tornam notadamente conhecidos por pessoas tentarem suicídio neles. Na literatura científica internacional, são chamados de hotspots. Geralmente, eles são públicos, de fácil acesso, com algum meio letal disponível ou de difícil impedimento por outra pessoa. No artigo “Intervention to reduce suicides at suicide hotspots: a systematic review and meta-analysis”, de Jane Pirkis e colaboradores, são avaliadas quatro estratégias para prevenção de suicídios nestes locais: restrição de acesso a meios letais; encorajamento de pedidos de ajuda; aumento da probabilidade de intervenção por outra pessoa e encorajamento da mídia noticiar o suicídio de maneira responsável. Os autores pesquisaram na literatura, buscando identificar tais estratégias empregadas em hotspots. Para ilustrar com alguns exemplos: em Gateway Bridge, na Austrália, instalou-se barreiras de 3,3 metros em 1993, substituindo-as por outras de 3,6 metros em 2010; em Ellington Bridge, nos Estados Unidos, instalou-se cercas de 2,4 metros de altura em Janeiro de 1986; em Muenster Terrace, na Suíca, instalou-se arames para evitar que pessoas utilizassem tal lugar para saltar. Nota-se que, em todos os locais mencionados, houve um período de observação pré e pós-intervenção, permitindo a obtenção de registros de mortes por suicídio, a fim de investigar se tais intervenções diminuíram tais registros. Os dados obtidos foram registrados abaixo:


Tabela 1. Resultados de intervenções de restrição de acesso a meios letais em hotspots, contendo período de registro pré e pós-intervenção, mortes por suicídio registradas no período e média de suicídios por ano.

Após a análise dos dados, concluíram que a restrição de acesso a meios letais é uma estratégia bastante eficaz para reduzir mortes por suicídio nestes locais, chegando-se a resultados bastante promissores, como é notada pela tabela. Pirkis e colaboradores também apontam que as outras intervenções analisadas no artigo (encorajamento de pedidos de ajuda; aumento da probabilidade de intervenção por outra pessoa e encorajamento da mídia noticiar o suicídio de maneira responsável) também apresentam resultados promissores, que devem ser implementada em conjunto com a restrição de acesso a meios letais, sobretudo quando esta não for possível ou viável economicamente de ser feita (por exemplo, em uma ferrovia).

Um possível argumento contrário à restrição de acesso a meios letais em um hotspot pode ser por uma questão estética, como prejuízos que pode trazer com relação à vista de uma ponte, por exemplo. Entretanto, tal fenômeno não foi identificado no estudo de Pirkis e colaboradores. Outro consiste na crença que, se um hotspot tiver alguma proteção contra tentativas de suicídio, pessoas em risco fariam a tentativa em outro local ou com outro método. No artigo “The effectiveness of structural interventions at suicide hotspots: a meta-analysis”, Jane Pirkis, junto com colaboradores, verificaram que, se há a restrição de acesso a meios letais em um hotspot, a taxa de mortes por suicídio com o mesmo método tendem a cair significativamente. É encontrado o efeito de pessoas tentarem tirar a própria vida em outros locais, embora a quantidade de tentativas seja menor.

Tal texto não pretende esgotar o assunto e a discussão, dada a abrangência e a complexidade do tema. Entretanto, as evidências mostram que a criação de formas de proteção em hotspots, idealmente combinada com encorajamento de pedidos de ajuda, aumento de probabilidade de intervenção com uma terceira parte e trabalho junto com a mídia, o tocante à prevenção do suicídio de suicídio, é uma direção promissora na alocação de recursos para a promoção de saúde pública.

Referências:

<https://www.who.int/mental_health/prevention/suicide/suicideprevent/en/>, acesso em 28 de Maio de 2019.

Hawton, K., Ratnayeke, L., Simkin, S., Harriss, L., & Scott, V. (2009). Evaluation of acceptability and use of lockable storage devices for pesticides in Sri Lanka that might assist in prevention of self-poisoning. BMC public health, 9(1), 69.

Pirkis, J., Spittal, M. J., Cox, G., Robinson, J., Cheung, Y. T. D., & Studdert, D. (2013). The effectiveness of structural interventions at suicide hotspots: a meta-analysis. International journal of epidemiology, 42(2), 541-548.

Pirkis, J., San Too, L., Spittal, M. J., Krysinska, K., Robinson, J., & Cheung, Y. T. D. (2015). Interventions to reduce suicides at suicide hotspots: a systematic review and meta-analysis. The Lancet Psychiatry, 2(11), 994-1001.

Vijayakumar, L., Jeyaseelan, L., Kumar, S., Mohanraj, R., Devika, S., & Manikandan, S. (2013). A central storage facility to reduce pesticide suicides-a feasibility study from India. BMC public health, 13(1), 850.


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